DOS CORPOS DÓCEIS À CAMA DE PROCUSTO: CIRURGIA BARIÁTRICA E TRANSFORMAÇÕES CORPORAIS
Abstract
[pt] A atual pesquisa tem como objetivo investigar a observada hegemonia feminina na busca por procedimentos de alteração das formas corporais como expressão da tentativa de atender a uma demanda social que estimula a procura por um corpo magro e saudável como via de acesso a felicidade na contemporaneidade. A prática clínica, em um ambulatório para acompanhamento psicológico a pacientes de uma equipe de cirurgia bariátrica, colocou em evidência a ansiedade pela conquista do corpo magro idealizado. No entanto, o processo psíquico de reconstrução da imagem corporal após a perda significativa de peso e cirurgias reparadoras do contorno corporal é complexo, demorado e atravessado pela alteridade. Desenvolvemos uma malha teórica que, articulada à prática clínica, destaca as incidências do sistema capitalista sobre os corpos e os efeitos da atual primazia imagética sobre a constituição psíquica. Evidenciamos, em seguida, a partir de algumas contribuições trazidas pela psicanálise, a perpetuação de impasses relacionados ao corpo mesmo após o desejado emagrecimento. Por último, a partir do romance Frankenstein de Mary Shelley, analisamos o lugar social conferido à mulher, uma lógica prometeica que estimula a ênfase na aparência e a narrativa contemporânea de preconceitos às formas corporais que subvertem a norma. Com isso, refletimos que a pressão estética na qual as mulheres estão fortemente submetidas, sobretudo mulheres com obesidade, equivale à violência contida no mito grego de Procusto, que mutilava aquilo que era diferente. O mito da beleza e, agora, o culto ao corpo são aperfeiçoados de forma a assumir a função de coerção social em um sistema de crenças que funciona para manter as mulheres obedientes à norma e submetidas às exigências mercadológicas na sociedade capitalista e patriarcal.